Imitemos José de Anchieta, na acolhida e na visitação

A VOZ DO PASTOR

Dom Sergio Arthur Braschi

 

Imitemos José de Anchieta, na acolhida e na visitação

 

Começamos o mês de junho, no dia 4, com a grande solenidade de Pentecostes: a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, “com Maria, a mãe de Jesus”, nos ecoa os primórdios da Igreja e nos aquece o coração para – também nós – continuarmos a missão de Jesus, o anúncio do Reino de vida plena, que Deus quer para todos.

Já na semana seguinte terei uma grande alegria: fui convidado – e levarei toda a Diocese no coração – para celebrar na novena preparatória à festa litúrgica de São José de Anchieta, no Santuário Nacional a ele dedicado no Estado do Espírito Santo. De fato, foi lá que o Padre Anchieta viveu os últimos anos de sua vida missionária, próximo à capital Vitória: a pequena cidade de Reritiba ( ou Iriritiba), por ele fundada anos antes, hoje recebe o seu nome: Anchieta (ES).

Celebrarei no Santuário Nacional de Anchieta no dia 07, quarta-feira, regressando a Ponta Grossa já no dia seguinte. Um convite que muito nos honra…

Queridos diocesanos: estamos vivendo este tempo tão especial da Comunidade Samaritana, em que procuramos renovar nossas Paróquias e comunidades através do empenho missionário de acolher a todos os moradores e visitar as casas nos setores adotados. É, portanto, providencial invocarmos a proteção do “Apóstolo do Brasil” e Padroeiro da catequese, que tanto se distinguiu na primeira hora da nossa nação, percorrendo incansavelmente – a pé – longínquos trechos do litoral brasileira, e subindo ao primeiro planalto paulista, onde fundou o Colégio Jesuíta, início da grande metrópole de São Paulo.

Anchieta nasceu em San Cristóbal de la Laguna (Tenerife, Ilhas Canárias) na festa de São José, 19 de março de 1534. Seu pai, Juan López de Anchieta, era de origem basca e se opôs politicamente ao imperador Carlos V, da Espanha. Juan López foi então refugiar-se nas Canárias para escapar das perseguições sofridas. A mãe, Mencía Díaz de Clavijo y Llerena, era natural das ilhas.

Quando tinha apenas 14 ou 15 anos de idade, José de Anchieta foi enviado para estudar em Portugal, cursando Filosofia na Universidade de Coimbra, onde teve o s primeiros contatos com os jesuítas, apenas fundados como ordem religiosa; em 1.º de maio de 1551 entrou para a Companhia de Jesus. Era comum, na comunidade religiosa, a leitura das cartas dos primeiros missionários jesuítas no Oriente, entre os quais São Francisco Xavier. José de Anchieta sentia o desejo de imitar esta vida missionária, embora sua saúde fosse muito frágil (tinha tuberculose óssea, que lhe provocava constantes dores nas articulações).

Em 8 de maio de 1553 (com apenas 19 anos de idade) partiu de Lisboa para o Brasil na expedição do Governador-Mór Duarte da Costa. Foi enviado pelo próprio Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus; chegando à Bahia, em Salvador encontrou pequeno grupo de jesuítas, entre os quais o padre Manuel da Nóbrega, com quem haveria de compartilhar tantos fatos de sua juventude.

Com o padre Nóbrega partiu, pouco depois, para a nova missão de Piratininga, no atual estado de São Paulo, onde chegaram em 24 de janeiro de 1554. No dia seguinte, festa litúrgica da conversão do apóstolo São Paulo, foi celebrada a primeira missa nessa missão, que recebeu o nome de São Paulo em homenagem ao apóstolo missionário. Essa data é reconhecida oficialmente como marco histórico da fundação da cidade de São Paulo, cujo pequeno colégio foi o primeiro dos jesuítas na América.

Ali o jovem Anchieta começa sua grande aventura de missionário mas também de professor e literato, ensinando a língua portuguesa aos índios e crianças dos portugueses: é deste primeiro período seu esforço de inculturação do Evangelho, escrevendo um catecismo e várias peças de teatro na língua dos indígenas. Compôs a primeira gramática da língua tupi, publicada em Coimbra (1595) com o título: Arte de gramática da Língua mais usada na costa do Brasi. E ainda compôs poemas e escreveu obras em português, latim, tupi e guarani.

Nos primeiros meses de 1563, atuou com o padre Nóbrega na negociação da paz entre os portugueses e os índios tamoios que ameaçavam a colônia de São Vicente (SP). O jovem jesuíta Anchieta (ainda não era sacerdote, apenas 20 anos de idade…) ofereceu-se como refém aos índios, ficando mais de seis meses entre eles, durante as negociações com a Confederação dos Tamoios. Nesse mesmo período, ameaçado continuamente em sua incolumidade física e moral, Anchieta escreveu nas areias de uma praia de Ubatuba seu Poema à Virgem Maria, em língua latina, que memorizou e depois transcreveu.

Conseguida a “Paz de Iperoig”, dedicou-se às missões de São Vicente e de São Paulo, cuidando da educação, saúde e assistência religiosa de indígenas e moradores portugueses. Finalmente, o sonho realizado: em 6 de junho de 1566, na Catedral de Salvador (Bahia), foi ordenado sacerdote. Tinha então, quase 32 anos de idade.

Sua vida de missionário prossegue com atividades de educador, fundando e regendo o primeiro colégio também no Rio de Janeiro (praticamente a origem da cidade), nunca descuidando dos índios e relatando, em longas cartas aos superiores da Companhia de Jesus na Europa, não só as atividades missionárias, mas também observações sobre a flora, a fauna, a geografia e o clima da terra brasileira. José de Anchieta pode ser considerado um dos primeiros geógrafos, antropólogos e naturalistas do Brasil.. Relata, com fidelidade, os usos e costumes indígenas, e como viviam também os portugueses e suas famílias.

Em 1576 (com 42 anos) tornou-se provincial da Companhia de Jesus no Brasil: durante seu governo é que se iniciaram as reduções do Paraguai, começando por Assunção e estendendo-se depois pela Argentina e sul do Brasil, ao longo dos Rios Paraguai, Paraná e Uruguai. No Rio de Janeiro, em 1582, iniciou a construção da Santa Casa de Misericórdia, destinada a assistir os doentes e as vítimas das frequentes epidemias.

Aprendamos de Anchieta a dedicação pelos pobres e doentes e a necessidade da oração: principalmente à noite passava longas horas em oraçãopreparando-se para levar a todos a luz do Evangelho de Cristo. Em 1587, deixando o cargo de superior provincial, foi encarregado do colégio de Vitória, onde começou a sentir mais fortemente a doença que o levaria à morte em 9 de junho de 1597, enquanto se encontrava em Reritiba, localidade no Espírito Santo que hoje leva o seu nome.

Desde sua morte foi considerado santo, embora sua beatificação só se deu em julho de 1980 e sua canonização (pelo Papa Francisco) a 3 de abril de 2014.

Na cidade abençoada por sua presença e sua entrada no seu estarei, no próximo dia 7 de junho, rezando por todos os missionários e missionárias de nossa diocese.

Deus abençoe a todos. Com o abraço de Dom Sergio Arthur.

 

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